quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Mais uma vez sozinho

Sei que muito bem que a melhor maneira de voltar ao meu blog não é fazendo desabafos, com o grande perigo que existe de esse espaço acabar virando realmente um diário eletrônico. Diários, não sei se suporto nem os encadernados.
Antes de tudo, estou no cursinho e praticamente sozinho, por assim dizer. Por certo que não estou sozinho, mas lembrando de como eram minhas tardes por aqui, essa sala costumava estar muito mais cheia, as mesas muito mais concorridas, os lápis muito mais cansados. Aonde foram todas essas pessoas? Meus amigos que costumavam estudar comigo, onde estão?~
Faltam alguns dias para as provas finais e muitos já ficaram pelo caminho. Dizem que minha geração é muito mole por nunca ter passado por uma guerra ou uma grande crise, mas isso não é justo. Olho para essas pessoas que têm seus destinos alterados por um décimo a menos em uma prova, olho como estão cansados e como têm medo do futuro. Isso não é ser forte? Lutar contra seus medos mesmo que isso significa sacrificar boa parte da sua juventude?
Não vou fazer também o Manifesto dos Vestibulandos por que certamente vão pedir para que eu confirme tudo o que escrever quando estiver na faculdade, com problemas de faculdade. Quem sabe o que pensarei amanhã? Mas acho que sempre vou admirar de certo modo essas pessoas, que não são meus amigos, mas estão aqui sozinhas também.
Acho que vou me admirar.
Sem rodeios com essa parte, não quero pensar em pedantismos ou modéstias agora. Eu não sei o que vai acontecer em janeiro, mas sei que se eu não ganhar ou não o que eu preciso, certamente vou ganhar menos do que eu mereço. Já são três anos fervorosos na luta por essa vaga na universidade, ou vaga no futuro. Se não passar fico no passado, velho, antiquado. Essa luta é para poucos e eu sinto que lutei, e ainda estou lutando muito.
Poucos tem a coragem de fazer o que eu faço, e pensando bem, não há outro lugar no mundo em que eu gostaria mais de estar agora (salvo na faculdade) do que nesse cursinho, sozinho, estudando como se me alimentasse disso.
Eu não sei o que vai acontecer em janeiro, mas vai ser uma disputa feroz, da qual eu não pretendo sair sem marcas de crueldade.
Volto agora sozinho para minha mesa, estudar as razões da Revolta Federalista.

domingo, 30 de janeiro de 2011

A volta dos meninos azuis

Olá marujos. Vocês que são de todas as idades, de todas as cores e vontades; que são de todas as opniões, credos e verdades; que são altos, baixos e astutos; que na verdade, de verdade, meio burros; que pensam muito e falam pouco, que pensam pouco e falam menos. Bem vindos de volta, minha querida tripulação. A terra prometida existe, estou aqui agora, não deixem de procurar.


No alto daquela montanha de que muito se fala, existe uma casinha meio bege com dois quartos. Além de dois quartos aquela casinha tem outros tipos de cômodos, e além dessa casinha, a montanha tem outros tipos de coisas variadas por sua superfície. Poderíamos passar horas falando sobre o banheiro pequenos com ladrilhos brilhantes ou sobre as cavernas rochosas e escuras, mas como não é o foco da história, peço encarecidaemente que não se concentrem nisso.
O importante é que dentro daquela casinha moravam três garotos azuis com muitos problemas, ainda que nenhum desses problemas estivesse relacionado ao fato deles serem azuis. Eles passavam fome na maioria dos dias, sentiam sede, não sabiam assobiar e pouco concordavam com o isolamento intelectual ao qual estavam submetidos.
Não tinham nome, por assim dizer. Eram exatamente iguais e normalmente não sabiam qual era qual, quer dizer, um deles sabia que não era os outros dois, mas ele mesmo não sabia diferenciá-los enquanto duas pessoas. Isso não era um grande problema, pois eram exatamente iguais, então um poderia muito bem ser o outro.
Certo dia, os garotos estavam do lado de fora da casa procurando para comer coisas vivas ou coisas que pudessem ter sido vivas um dia. Era um trabalho difícil porque eles não sabiam ao certo qual daquelas tantas coisas que se encontravam na montanhas eram ou já foram vivas. Eles sabiam que eles eram vivos, mas não se sentiam muito a vontade em se alimentar deles mesmo. Bom, nesse dia, enquanto procuravam comida pela montanha, algo inesperado aconteceu, um brilho vermelho apareceu do céu e dele saíram dois garotos vermelhos com roupas da moda. No entanto, o evento foi tão inesperado que os garotos azuis nem ao menos consideraram sua existência, apenas continuaram a fazer o que estavam fazendo.
- Acho que os encontrei - Disse um garoto vermelho ao outro enquanto apontava para os garotos azuis.
- Aqueles são os garotos azuis? - Perguntou o outro garoto vermelho.
- O que você acha? - Disse o garoto vermelho sarcasticamente.
Os garotos vermelhos pegaram seus aparelhos medidores de qualquer coisa e se aproximaram lentamente dos garotos azuis. Aproximaram tanto que já estava clara a presença deles, então esperaram qualquer consentimento, mas nada aconteceu. Um dos garotos vermelhos decidiu falar.
- Bem vindos de volta, garotos azuis. - Disse tentando parecer o mais sério que conseguia.
Os garotos azuis ignoraram a saudação, passaram a observar um punhado de areia enquanto silenciosamente se indagavam se aquilo estava ou já fora vivo algum dia.
- Eu disse... Bem vindo de volta, garotos azuis. - Repetiu o garoto vermelho, falando mais alto.
- Nós ouvimos - Disse o garoto azul, que poderia muito bem ter sido qualquer um dos três.
- E por que não responderam? - Perguntou o outro garoto vermelho, confuso.
Os garotos azuis perceberam que iniciaram algum tipo de conversa e deixaram o monte de areia para trás, apesar de ainda estarem prestando atenção para o caso dele estar vivo e fugir.
- Achamos que não era conosco que estava falando - Disse um garoto azul, que não era o último, mas poderia ser qualquer um dos outros dois.
- E com quem eu haveria de estar falando? - Perguntou o garoto vermelho.
- Não sabemos, mas como nós estávamos parados e vocês vieram até nós, não há razão para vocês dizerem "Bem vindos", visto que nós não viemos de nenhum lugar.
- Bom sim, mas...
- Além disso, nós não somos garotos azuis.
Os garotos vermelhos se entreolharam confusos tentando entender o que eles queriam dizer com aquilo Claramente eles eram garotos azuis, como muita das outras coisas que também são azuis.
- Acho que vocês estão enganados, quer dizer... Dissemos "Bem vindos" por que reencontramos vocês depois de tanto tempo e... Como posso dizer... Vocês são azuis.
Vendo que o punhado de areia não fugiu para nenhum lugar, os garotos azuis concluíram que ele não estava vivo. Pararam de se preocupar com ele e passaram a tentar se concentrar na conversa que estavam tendo.
- Certamente não nos vimos antes, e certamente não somos azuis - Disse dois dos garotos azuis simultaneamente,
Os garotos vermelhos se entreolharam mais uma vez confusos.
- Não temos tempo para isso, vocês já estão prontos? - Perguntou o outro garoto vermelho impaciente.
- Prontos para o quê? - Perguntaram os três garotos azuis.
O garoto vermelho passou a mão no rosto como que não acreditando na situação.
- Eles não estão prontos - Exclamou o garoto vemelho para o outro - Eles não estão prontos, não se lembram de nada, e por que eles são três iguais ao invés de dois?
- Somos sempre três, por que seríamos dois? - Perguntou um dos garotos azuis para o garoto vermelho.
- Não faz sentido vocês serem três... - Disse um dos garotos vermelhos.
- Mas somos - Disseram os três garotos azuis juntos - Então é a sua afirmação que não faz sentido.
O garoto vermelho saiu de perto bravo. Começou a apertar uns botões em seu aparelho medidor de qualquer coisa e então um brilho vermelho apareceu.
- O que está fazendo? - Perguntou o outro garoto vermelho.
- Com certeza erramos, esses aí não podem ser os garotos azuis, vamos embora...
- Você está brincando? Eles são garotos, são azuis... São garotos azuis!
- Mas são uns idiotas... Anda, vamos.
Os garotos vermelhos entraram naquele brilho vermelho que desapareceu no ar. Os garotos azuis ainda esperaram um pouco prestando atenção se a conversa tinha mesmo acabado, visto que ninguém disse "Tchau" ou "Até logo". Passado um tempo voltaram a procurar no chão coisas que poderiam estar ou ter sido vivas algum dia. Supreenderam-se quando notaram que o monte de areia não estava mais ali.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O filme

Ricardo tentou não pensar em nada enquanto lentamente dava o passo mais significativo de sua vida. Tentou, mas como podia envaziar sua mente com aquela visão? O céu estava nublado, mas tudo bem, era assim que ele gostava, um céu cinza tentando competir com a cidade cinza que tanto amava. Como poderia não pensar em nada olhando para aquela cidade? Amava cada uma das árvores secas, cada calçada, cada poste, cada orelhão... Lá embaixo estavam seus queridos cidadãos, sem eles nada seria igual, sem o cobrador do ônibus, sem o professor de cursinho, sem o porteiro do prédio. Pronto, quase hesitou, quase, do jeito que ele disse mil vezes para não fazer. Não era tempo de hesitar, não era tempo de pensar, deu um passo e pulou do décimo quinto andar daquele prédio rosa.
Sempre lhe disseram que antes de morrer, pode-se reviver cada segundo de sua vida como um filme. Ele nunca acreditou, mas talvez o mais acertado aqui seria dizer que Ricardo Kuraoka Martins nunca acreditou em nada nem em ninguém. Aprendeu cedo que pessoas mentem, enganam até mesmo quem mais estimam e respeitam.
Naquele dia acreditou.
Não estava pensando em se jogar quando abriu a janela, era uma tarde extremamente quente, embora fosse inverno, só queria um pouco de ar fresco. Não tinha planejado nada quando andou até o parapeito da varanda e olhou para o horizonte, só queria ver a paisagem. Enquanto olhava para longe, buscava dentro de si qual sentimento que mais se adequava, talvez felicidade, suspresa, tristeza... Nada parecia certo... Tentou o remorso, a saudade... Até a raiva, mas nada se adequeava a olhar o horizonte do décimo quinto andar de um prédio. Demorou um pouco para perceber que já não haviam sentimentos disponíveis, simplesmente não conseguia sentir nada, estava vazio... Decidiu pular.
Passando pelo décimo quarto andar, Ricardo se perguntou se foi mesmo uma boa idéia... Quer dizer, poucas das coisas que fizera antes por impulso foram boas idéias. Uma vez tentou alcançar uma lata de pêssego em calda usando duas cadeiras empilhadas, ficou horas no chão caído sem conseguir se levantar. Não que ser impulsivo seja algo ruim, às vezes pensava tanto antes de fazer algo que se orgulhava de quando conseguia ser impulsivo...
Lá pelo décimo terceiro andar decidiu parar de pensar nessas coisas... Agora já não tinha volta, deveria aproveitar o tempo da melhor maneira possível. E qual seria essa? Lembrou logo do que diziam sobre pular de um prédio, que raramente era o choque a causa da morte - o que Ricardo percebeu logo que não era um alívio - e que um filme passa mostrando cada segundo de sua vida.
Ricardo não sabia o por que queria reviver aqueles momentos tão confusos de uma vida tão estressante quanto foi a sua, e isso foi tudo o que conseguiu pensar enquanto caía do décimo segundo andar.
Ao chegar ao décimo primeiro, teve uma idéia. Procuraria por todo o filme onde tudo tinha dado tão errado. Quer dizer, precisava existir um ponto, um deslize que tenha o deixado daquele jeito. Talvez um trauma? Um gesto? Falta de sódio? Decidiu que iria descobrir para assim dar um sentido a tudo aquilo, chegaria ao chão dizendo "Ah! Entendi!" e depois tudo seria menos importante.
O décimo andar não foi assim tão revelador, se lembrou de sua infância... Um pouco de terra, chocolate, livros... Aquela casa branca com gramado verde... Como algo poderia ter dado errado por lá? Não foi exatamente o exemplo de infância que vemos em comerciais de margarina, mas Ricardo sabia que não poderia pedir uma diferente... Talvez uma piscina, sempre quis ter uma piscina.
Durante o nono andar veio em sua cabeça a primeira vez olhou o céu... Só estava querendo ficar sozinho, então subiu no telhado da casa e ficou lá deitado. Nunca tinha olhado para o céu daquele jeito, aquela imensidão azul que parecia tão perto e tão longe, que confundia os olhos e causavam angústia enquanto não encontravam nada para focar... Não sabia por que sentiu medo naquela hora, mas ao rever a cena percebeu que não era o céu, mas sim o infinito que o apavorava.
Sentiu cheiro de café, e ao chegar ao oitavo andar se viu dentro daquela livraria em que sempre ia. Achava aquela a melhor idéia que alguém já teve, juntar café e livros em um mesmo lugar. Como adorava tomar café... Não ajudava muito suas crises de esofagite, mas com um bom livro ou uma boa companhia não ligava de sentir enjôos no dia seguinte.
Uma mulher estava olhando a vista no sétimo andar e começou a gritar, o que não deixou Ricardo se concentrar. Ao ver melhor, aquela mulher trabalhava naquele armazém da esquina que vendia comida japonesa. Parecia muito triste enquanto contava as moedas no caixa ou empilhava caixas na prateleira. Ricardo tentava sorrir sempre para ela, mas o sorriso sempre acabava parecendo intimidador, provocante... Queria ter feito mais por aquela mulher.
Ricardo percebeu que não estava se esforçando o suficiente. Já estava no sexto andar e ainda não sabia por que sua vida estava daquele jeito. Será que tinha desperdiçado seu tempo assim como desperdiçou os segundos que se passaram naquele pensamento? Será que tinha desperdiçado sua vida ao pular ou não ter pulado antes é que foi um desperdício? Foi um desperdício tudo o que aprendeu? As pessoas, os lugares...
Que pessoas são essas? Que lugares são esses? Lembrou de um malabarista anarquista que conheceu uma vez, e apesar de Ricardo nunca ter pensado uma vez sequer em seguir o anarquismo, admirava o tal malabarista, seus sonhos eram tão intensos suas idéias tão sulculentas que sentia vontade de abocanhá-las a mordidas. Lembrou de um engenheiro que costumava dizer que as coisas eram bem mais simples do que a gente imaginava, dizia que o sol nascia, se punha, a tristeza vinha, a felicidade se punha, e que a vida era isso mesmo, tínhamos que aproveitar o que viesse.
Por que passou todo o quinto andar pensando naquelas pessoas? Eram ótimas pessoas, tinham boas idéias, o ajudaram, mas no fim das contas, elas não eram ele.
Foi então que Ricardo sentiu uma familiar sensação, aquela sensação que ele sempre tinha antes de escrever textos incríveis. Ele sabia o que estava vindo, a maior epifania de todas, aquela que juntaria todas as peças e responderia todas as respostas, aquela que acabaria com sua revolta e o deixaria finalmente em paz.
Horas depois, o legista concluiu que Ricardo não morreu pela queda e sim por um ataque cardíaco segundos antes de chegar ao chão. Há quem diga que, estatelado no chão, Ricardo não tinha qualquer expressão de paz ou conformidade. Estava com os olhos abertos, olhos curiosos, olhos cheios de lua, como os olhos de quem assiste aos últimos minutos de um filme.

domingo, 25 de abril de 2010

O marco da minha vida

O marco da minha vida foi quando descobri, ao menos em parte, como é difícil ter 34 anos. Ter de conciliar o ínicio da carreira com as pessoas que gostaria de levar junto, com as vontades, com os sentimentos.
O marco da minha vida foi quando percebi que duas pessoas se gostarem não é o mais difícil de se conseguir em uma relação, e nem suficiente para mantê-la.
O marco da minha vida foi quando consegui ser sincero e confiar em alguém de um jeito que nunca fiz antes.
O marco da minha vida foi quando entendi que lugares deveria ir e que lugares deveria evitar.
O marco da minha vida foi quando senti atração de um modo tão natural... Tão bonito...
O marco da minha vida foi quando vi tantas semelhanças que parecia certo o envolvimento.
O marco da minha vida foi quando conversei sobre tudo o que me afligia com a pessoa certa.
Desde então, não sou o mesmo. Não sou muito diferente, mas ainda assim, algo mudou, e foi muito importante para mim.
...
Como o marco é lindo...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A hora

Olá marujos. Acho que o melhor conselho que posso dar a vocês na minha vida é que não sejam indecisos. Estejam lá para o tudo ou o nada, para ganhar ou perder, mas se não sabem a que vieram, talvez não devessem nem terem vindo.

-Sabe...
-O que foi?
-Eu queria te perguntar uma coisa...
-O quê?
-É... quando... como... Como você sabe quando... é a hora?
-A hora?
-Sabe? Aquela hora.
-Aquela hora?
-É. Aquela hora.
-Bom... A gente normalmente não sabe quando é aquela hora.
-Mas você parece saber sempre.
-Nem sempre. Eu... Normalmente não fico pensando se a hora é aquela hora.
-Você... Não quer que aquela hora chegue?
-Não é isso, mas... Não é algo que eu posso controlar, então eu faço muitas coisas. Se alguma delas me levar àquela hora, então está bom. Se não, paciência.
-Mas... Sabe... Aquela hora nunca veio para mim...
-Como eu vou te falar? Você... Sabe como você é...
-Não. Não sei. Como é que eu sou?
-Preocupado demais, inseguro demais. Você só se sente seguro se for do jeito que imagina, mas nunca é do jeito que imagina. Você quer mais aquela hora do que curtir o momento mesmo.
-Eu não entendo...
-Você tem medo de não valer a pena. Sempre. Tem medo de se envergonhar. Tem medo e deixa ele te dominar. Então você acha uma posição segura e espera que aquela hora aconteça sem você se arriscar. Mas isso quase nunca acontece.
-Eu... Eu não sei... Me dá calafrios, me dá coceira, me sua as mãos... Eu não consigo apenas me deixar levar... Parece que vou falar errado, agir errado... Parece que tenho que pular fora um pouco antes de conseguir.
-Escute... É normal se sentir assim... Nós todos agimos desse modo. Mas, você precisa entender que é preciso lutar contra isso. Nunca vai conseguir alcançar aquela hora desse jeito. Precisa entender que o maior obstáculo é você mesmo.
-É difícil... Mas... Vou tentar... Isso vai mudar.
-Isso! É assim que tem que ser. Pode ser devagar, mas aos poucos você vai se sujeitar aos outros, e vai conseguir a sua hora.
-Acho que sim... Obrigado pelas palavras e pelo tempo.
-Imagina. Agora vai lá que essa vida vai te levar aonde quiser, ela só não te espera para embarcar nela.
-Vou sim. Você vem comigo?
-... Achei que nunca ia perguntar.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Felicidade

Olá marujos. Viver é um desperdício de energia, um desperdício de palavras, de matéria. Viver é um desperdício de existência, um desperdício de idéias e soluções. Viver é um desperdício de razão, um desperdício de sentimentos e emoções. Que lindo desperdício é viver.

Não seria mais confortável aos olhos daquela pessoa que ele estivesse são. Talvez por que assim parecia se divertir, rindo, falando besteiras. Às vezes temos que esquecer a realidade um pouco, ou talvez apenas lembrar o quão relativa ela pode ser. Condenar alguém que se comporta de certo modo é muito mais fácil do que incluir sua visão do mundo na realidade proposta.
A sanidade, a realidade, o certo, o fácil... São tudo ilusões, a princípio, mas ilusões que funcionam. Cada um tem seu próprio jeito de fazê-la funcionar e assim conseguir viver minimamente, ou até apenas viver, nesse mundo. Aquela pessoa, vendo seu pai sorrindo não o condenou como o resto de sua família. Isso por que entendia, até certo pondo, a relatividade das coisas e não sabia se conseguiria interferir naquela cena. Ele parecia tão feliz.
Logo, convidou todas as pessoas na festa a se retirarem. Não apenas por estar tarde, mas não permitiria mais comentários de qualquer tipo. Os familiares hesitaram por um momento, falaram em médicos, clínicas de reabilitação, mas aquela pessoa não recuou e em pouco tempo a casa estava vazia. Realmente, estava ficando tarde, tinha que colocar seu pai na cama. Não o fez imediatamente, olhou para ele durante algum tempo... Como ria, nunca tinha o visto daquele jeito. Passado alguns minutos resolveu que já era a hora, pegou-o pelo braço devagar e delicadamente. O homem parou por um momento de sorrir, olhou para cima e perguntou:
- Quem é você?
Aquilo foi um baque. Por alguns instantes pensou em reconsiderar as propostas de seus familiares, colocar seu pai em algum lugar especializado para se tratar. Ele parecia tão indefeso... Tão frágil... Não podia fazer aquilo. Tudo bem...
- Ninguém – Respondeu – Vamos para sua cama.
O homem voltou a sorrir, embora fosse um sorriso mais discreto que o anterior. Agradeceu a ajuda e foram os dois bem devagar subindo a escada. Aquela pessoa talvez tenha chorado no caminho, deixado cair algumas lágrimas, muito possivelmente tenha acontecido, mas nem isso nem nada importava, por que ele estava feliz.

domingo, 13 de dezembro de 2009

É só uma fase

Olá marujos. Espero que possam perdoar minha ausência, mas olhei para o horizonte e vi meu sonho lentamente desaparecendo e tive que correr atrás. Pulei do navio e nadei o mais forte que pude, com meus braços e pernas. Por mais que eu nadasse não pude alcançá-lo e acabei voltando. Desculpem esse velho capitão por ainda ter sonhos, por ainda correr atrás de tudo que brilha e faz luz. Desculpem, por favor.

Era uma noite, daquelas típicas noites frias do final de julho. Dentro de uma das muitas casinhas brancas com telhado vermelho que se espalhavam pela região, um homem assistia ao jornal na televisão enquanto tomava uma xícara de chocolate quente. Logo, pezinhos apressados desceram as escadas correndo e se colocaram entre o homem e a televisão.
- Filho, pode me dar licença? O papai quer assistir TV.
O menino foi rapidamente para o lado da poltrona, parecia aflito.
- Papai...
- Um minuto...
- É que...
- Um minuto filho, já te ouço.
O menino sentou no chão e começou a desenhar rabiscos com o dedo no carpete. Passado algum tempo o pai diminuiu o volume e perguntou sem virar o rosto:
- O que você queria me dizer?
- Pai... é que... Tem uma coisa estranha acontecendo...
- O quê?
- É... Lá em cima...
- O que tem lá em cima? Sua irmã?
O menino fez que sim com a cabeça, embora o pai estivesse ainda olhando a televisão.
- Ela... Está dizendo coisas estranhas...
- Que tipo de coisa?
- Ela disse que foi possuída pelo demônio...
- Sei... - O homem começou a aumentar o volume de novo.
- Pai!
- Filho, só fala para ela não ficar brincando até tarde que amanhã tem aula.
- Mas... Pai...
- Deixa de implicar com a sua irmã, vai lá em cima brincar com ela que eu já subo.
O menino foi até a escada, olhou para cima e voltou correndo.
- Pai... Eu não quero subir.
- Mas tem que subir, anda que daqui a pouco é hora de dormir.
- É que... ela... ela não tá só falando coisas estranhas...
- O que ela está fazendo?
- Ela... pegou esmalte vermelho e está escrevendo coisas na parede.
O apresentador do jornal deu boa noite e o pai começou mudar de canal procurando outro.
- Eu deixei ela decorar o quarto do jeito que achasse melhor... Por que você não ajuda?
- Mas pai! Ela também tirou a cabeça de todas as bonecas e pregou alfinetes nos olhos delas.
- Aquelas estavam velhas mesmo, depois você pede para a sua mãe comprar brinquedos novos para vocês dois.
O menino passou a mão no rosto como que não acreditando.
- Pai, você está me escutando?
- Claro filho.
- Então escuta... Ela levou velas para o quarto dela, fica falando uma língua que eu não conheço.
- Você sabe que sua irmã já tem permissão para usar fogo, você vai ter que esperar. Vai ter que esperar para ter aulas de inglês também.
O menino estava já lacrimejado, foi para perto do pai devagar.
- Pai... Eu... Estou com medo.
O homem deu um suspiro, colocou a televisão no mudo e finalmente se virou para o menino.
- Filho, você tem que entender que a sua irmã está crescendo, está passando por uma fase. Mas todos nós passamos por isso, eu passei, a mamãe passou, a vovó, e você vai passar exatamente pela mesma coisa que ela.
O menino se desatou a chorar e correu de novo escada acima para o seu quarto. O pai não ouviu o choro, aumentou o volume de novo para ouvir a previsão do tempo.