Ricardo tentou não pensar em nada enquanto lentamente dava o passo mais significativo de sua vida. Tentou, mas como podia envaziar sua mente com aquela visão? O céu estava nublado, mas tudo bem, era assim que ele gostava, um céu cinza tentando competir com a cidade cinza que tanto amava. Como poderia não pensar em nada olhando para aquela cidade? Amava cada uma das árvores secas, cada calçada, cada poste, cada orelhão... Lá embaixo estavam seus queridos cidadãos, sem eles nada seria igual, sem o cobrador do ônibus, sem o professor de cursinho, sem o porteiro do prédio. Pronto, quase hesitou, quase, do jeito que ele disse mil vezes para não fazer. Não era tempo de hesitar, não era tempo de pensar, deu um passo e pulou do décimo quinto andar daquele prédio rosa.
Sempre lhe disseram que antes de morrer, pode-se reviver cada segundo de sua vida como um filme. Ele nunca acreditou, mas talvez o mais acertado aqui seria dizer que Ricardo Kuraoka Martins nunca acreditou em nada nem em ninguém. Aprendeu cedo que pessoas mentem, enganam até mesmo quem mais estimam e respeitam.
Naquele dia acreditou.
Não estava pensando em se jogar quando abriu a janela, era uma tarde extremamente quente, embora fosse inverno, só queria um pouco de ar fresco. Não tinha planejado nada quando andou até o parapeito da varanda e olhou para o horizonte, só queria ver a paisagem. Enquanto olhava para longe, buscava dentro de si qual sentimento que mais se adequava, talvez felicidade, suspresa, tristeza... Nada parecia certo... Tentou o remorso, a saudade... Até a raiva, mas nada se adequeava a olhar o horizonte do décimo quinto andar de um prédio. Demorou um pouco para perceber que já não haviam sentimentos disponíveis, simplesmente não conseguia sentir nada, estava vazio... Decidiu pular.
Passando pelo décimo quarto andar, Ricardo se perguntou se foi mesmo uma boa idéia... Quer dizer, poucas das coisas que fizera antes por impulso foram boas idéias. Uma vez tentou alcançar uma lata de pêssego em calda usando duas cadeiras empilhadas, ficou horas no chão caído sem conseguir se levantar. Não que ser impulsivo seja algo ruim, às vezes pensava tanto antes de fazer algo que se orgulhava de quando conseguia ser impulsivo...
Lá pelo décimo terceiro andar decidiu parar de pensar nessas coisas... Agora já não tinha volta, deveria aproveitar o tempo da melhor maneira possível. E qual seria essa? Lembrou logo do que diziam sobre pular de um prédio, que raramente era o choque a causa da morte - o que Ricardo percebeu logo que não era um alívio - e que um filme passa mostrando cada segundo de sua vida.
Ricardo não sabia o por que queria reviver aqueles momentos tão confusos de uma vida tão estressante quanto foi a sua, e isso foi tudo o que conseguiu pensar enquanto caía do décimo segundo andar.
Ao chegar ao décimo primeiro, teve uma idéia. Procuraria por todo o filme onde tudo tinha dado tão errado. Quer dizer, precisava existir um ponto, um deslize que tenha o deixado daquele jeito. Talvez um trauma? Um gesto? Falta de sódio? Decidiu que iria descobrir para assim dar um sentido a tudo aquilo, chegaria ao chão dizendo "Ah! Entendi!" e depois tudo seria menos importante.
O décimo andar não foi assim tão revelador, se lembrou de sua infância... Um pouco de terra, chocolate, livros... Aquela casa branca com gramado verde... Como algo poderia ter dado errado por lá? Não foi exatamente o exemplo de infância que vemos em comerciais de margarina, mas Ricardo sabia que não poderia pedir uma diferente... Talvez uma piscina, sempre quis ter uma piscina.
Durante o nono andar veio em sua cabeça a primeira vez olhou o céu... Só estava querendo ficar sozinho, então subiu no telhado da casa e ficou lá deitado. Nunca tinha olhado para o céu daquele jeito, aquela imensidão azul que parecia tão perto e tão longe, que confundia os olhos e causavam angústia enquanto não encontravam nada para focar... Não sabia por que sentiu medo naquela hora, mas ao rever a cena percebeu que não era o céu, mas sim o infinito que o apavorava.
Sentiu cheiro de café, e ao chegar ao oitavo andar se viu dentro daquela livraria em que sempre ia. Achava aquela a melhor idéia que alguém já teve, juntar café e livros em um mesmo lugar. Como adorava tomar café... Não ajudava muito suas crises de esofagite, mas com um bom livro ou uma boa companhia não ligava de sentir enjôos no dia seguinte.
Uma mulher estava olhando a vista no sétimo andar e começou a gritar, o que não deixou Ricardo se concentrar. Ao ver melhor, aquela mulher trabalhava naquele armazém da esquina que vendia comida japonesa. Parecia muito triste enquanto contava as moedas no caixa ou empilhava caixas na prateleira. Ricardo tentava sorrir sempre para ela, mas o sorriso sempre acabava parecendo intimidador, provocante... Queria ter feito mais por aquela mulher.
Ricardo percebeu que não estava se esforçando o suficiente. Já estava no sexto andar e ainda não sabia por que sua vida estava daquele jeito. Será que tinha desperdiçado seu tempo assim como desperdiçou os segundos que se passaram naquele pensamento? Será que tinha desperdiçado sua vida ao pular ou não ter pulado antes é que foi um desperdício? Foi um desperdício tudo o que aprendeu? As pessoas, os lugares...
Que pessoas são essas? Que lugares são esses? Lembrou de um malabarista anarquista que conheceu uma vez, e apesar de Ricardo nunca ter pensado uma vez sequer em seguir o anarquismo, admirava o tal malabarista, seus sonhos eram tão intensos suas idéias tão sulculentas que sentia vontade de abocanhá-las a mordidas. Lembrou de um engenheiro que costumava dizer que as coisas eram bem mais simples do que a gente imaginava, dizia que o sol nascia, se punha, a tristeza vinha, a felicidade se punha, e que a vida era isso mesmo, tínhamos que aproveitar o que viesse.
Por que passou todo o quinto andar pensando naquelas pessoas? Eram ótimas pessoas, tinham boas idéias, o ajudaram, mas no fim das contas, elas não eram ele.
Foi então que Ricardo sentiu uma familiar sensação, aquela sensação que ele sempre tinha antes de escrever textos incríveis. Ele sabia o que estava vindo, a maior epifania de todas, aquela que juntaria todas as peças e responderia todas as respostas, aquela que acabaria com sua revolta e o deixaria finalmente em paz.
Horas depois, o legista concluiu que Ricardo não morreu pela queda e sim por um ataque cardíaco segundos antes de chegar ao chão. Há quem diga que, estatelado no chão, Ricardo não tinha qualquer expressão de paz ou conformidade. Estava com os olhos abertos, olhos curiosos, olhos cheios de lua, como os olhos de quem assiste aos últimos minutos de um filme.
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1 Bilhetes em garrafa:
O momento menos disperdiçado dessa queda livre inconcluída foi justamente a mulher da janela.
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