domingo, 30 de janeiro de 2011

A volta dos meninos azuis

Olá marujos. Vocês que são de todas as idades, de todas as cores e vontades; que são de todas as opniões, credos e verdades; que são altos, baixos e astutos; que na verdade, de verdade, meio burros; que pensam muito e falam pouco, que pensam pouco e falam menos. Bem vindos de volta, minha querida tripulação. A terra prometida existe, estou aqui agora, não deixem de procurar.


No alto daquela montanha de que muito se fala, existe uma casinha meio bege com dois quartos. Além de dois quartos aquela casinha tem outros tipos de cômodos, e além dessa casinha, a montanha tem outros tipos de coisas variadas por sua superfície. Poderíamos passar horas falando sobre o banheiro pequenos com ladrilhos brilhantes ou sobre as cavernas rochosas e escuras, mas como não é o foco da história, peço encarecidaemente que não se concentrem nisso.
O importante é que dentro daquela casinha moravam três garotos azuis com muitos problemas, ainda que nenhum desses problemas estivesse relacionado ao fato deles serem azuis. Eles passavam fome na maioria dos dias, sentiam sede, não sabiam assobiar e pouco concordavam com o isolamento intelectual ao qual estavam submetidos.
Não tinham nome, por assim dizer. Eram exatamente iguais e normalmente não sabiam qual era qual, quer dizer, um deles sabia que não era os outros dois, mas ele mesmo não sabia diferenciá-los enquanto duas pessoas. Isso não era um grande problema, pois eram exatamente iguais, então um poderia muito bem ser o outro.
Certo dia, os garotos estavam do lado de fora da casa procurando para comer coisas vivas ou coisas que pudessem ter sido vivas um dia. Era um trabalho difícil porque eles não sabiam ao certo qual daquelas tantas coisas que se encontravam na montanhas eram ou já foram vivas. Eles sabiam que eles eram vivos, mas não se sentiam muito a vontade em se alimentar deles mesmo. Bom, nesse dia, enquanto procuravam comida pela montanha, algo inesperado aconteceu, um brilho vermelho apareceu do céu e dele saíram dois garotos vermelhos com roupas da moda. No entanto, o evento foi tão inesperado que os garotos azuis nem ao menos consideraram sua existência, apenas continuaram a fazer o que estavam fazendo.
- Acho que os encontrei - Disse um garoto vermelho ao outro enquanto apontava para os garotos azuis.
- Aqueles são os garotos azuis? - Perguntou o outro garoto vermelho.
- O que você acha? - Disse o garoto vermelho sarcasticamente.
Os garotos vermelhos pegaram seus aparelhos medidores de qualquer coisa e se aproximaram lentamente dos garotos azuis. Aproximaram tanto que já estava clara a presença deles, então esperaram qualquer consentimento, mas nada aconteceu. Um dos garotos vermelhos decidiu falar.
- Bem vindos de volta, garotos azuis. - Disse tentando parecer o mais sério que conseguia.
Os garotos azuis ignoraram a saudação, passaram a observar um punhado de areia enquanto silenciosamente se indagavam se aquilo estava ou já fora vivo algum dia.
- Eu disse... Bem vindo de volta, garotos azuis. - Repetiu o garoto vermelho, falando mais alto.
- Nós ouvimos - Disse o garoto azul, que poderia muito bem ter sido qualquer um dos três.
- E por que não responderam? - Perguntou o outro garoto vermelho, confuso.
Os garotos azuis perceberam que iniciaram algum tipo de conversa e deixaram o monte de areia para trás, apesar de ainda estarem prestando atenção para o caso dele estar vivo e fugir.
- Achamos que não era conosco que estava falando - Disse um garoto azul, que não era o último, mas poderia ser qualquer um dos outros dois.
- E com quem eu haveria de estar falando? - Perguntou o garoto vermelho.
- Não sabemos, mas como nós estávamos parados e vocês vieram até nós, não há razão para vocês dizerem "Bem vindos", visto que nós não viemos de nenhum lugar.
- Bom sim, mas...
- Além disso, nós não somos garotos azuis.
Os garotos vermelhos se entreolharam confusos tentando entender o que eles queriam dizer com aquilo Claramente eles eram garotos azuis, como muita das outras coisas que também são azuis.
- Acho que vocês estão enganados, quer dizer... Dissemos "Bem vindos" por que reencontramos vocês depois de tanto tempo e... Como posso dizer... Vocês são azuis.
Vendo que o punhado de areia não fugiu para nenhum lugar, os garotos azuis concluíram que ele não estava vivo. Pararam de se preocupar com ele e passaram a tentar se concentrar na conversa que estavam tendo.
- Certamente não nos vimos antes, e certamente não somos azuis - Disse dois dos garotos azuis simultaneamente,
Os garotos vermelhos se entreolharam mais uma vez confusos.
- Não temos tempo para isso, vocês já estão prontos? - Perguntou o outro garoto vermelho impaciente.
- Prontos para o quê? - Perguntaram os três garotos azuis.
O garoto vermelho passou a mão no rosto como que não acreditando na situação.
- Eles não estão prontos - Exclamou o garoto vemelho para o outro - Eles não estão prontos, não se lembram de nada, e por que eles são três iguais ao invés de dois?
- Somos sempre três, por que seríamos dois? - Perguntou um dos garotos azuis para o garoto vermelho.
- Não faz sentido vocês serem três... - Disse um dos garotos vermelhos.
- Mas somos - Disseram os três garotos azuis juntos - Então é a sua afirmação que não faz sentido.
O garoto vermelho saiu de perto bravo. Começou a apertar uns botões em seu aparelho medidor de qualquer coisa e então um brilho vermelho apareceu.
- O que está fazendo? - Perguntou o outro garoto vermelho.
- Com certeza erramos, esses aí não podem ser os garotos azuis, vamos embora...
- Você está brincando? Eles são garotos, são azuis... São garotos azuis!
- Mas são uns idiotas... Anda, vamos.
Os garotos vermelhos entraram naquele brilho vermelho que desapareceu no ar. Os garotos azuis ainda esperaram um pouco prestando atenção se a conversa tinha mesmo acabado, visto que ninguém disse "Tchau" ou "Até logo". Passado um tempo voltaram a procurar no chão coisas que poderiam estar ou ter sido vivas algum dia. Supreenderam-se quando notaram que o monte de areia não estava mais ali.

1 Bilhetes em garrafa:

Maria Joana disse...

Garotos azuis... inicialmente me lembraram o menino mais velho e o menino mais novo. Mas têm a fala muito desenvolvida para se comparar àqueles.
Gostaria de saber mais sobre os garotos vermelhos e os azuis, mas tem coisas que quando se conta muito, perde a graça.

Gostei do momtinho de areia.